quarta-feira, 16 de março de 2022

Amor de primos














 Oi meu filho! 


Hoje é o aniversário da sua prima, Laura.

Eu queria te contar a história de como a Laura chegou na nossa vida e como ela ocupou meu coração desde que soube que ela estava na barriga da sua tia Cláudia.

Ela foi um bebezinho super esperado. 

Certamente, naquela época, não sabíamos o tanto de coisas que ela viria nos ensinar, de tantas formas diferentes. 


Sabe, filho, eu vi a Laura crescendo na barriga da titia e não sei bem explicar, mas já sentia um amor imenso. Acompanhei cada detalhe e esperava ansiosamente pelo dia que ia poder pegar aquela nenenzinha no colo.

Ela chegou há 15 anos atrás  e mudou a vida de todo mundo.

Era bochechuda, cabeludinha… uma boneca! 


Quando ela completou 7 dias de vida, a tia Cláudia precisou ser hospitalizada. O tio Reinaldo, pai da Laura, ficou no hospital com ela. 

E de repente, quando eu percebi, estava sozinha com a Laura no colo, recém nascida. Sem ter a menor ideia do que fazer. Até hoje não sei muito bem como consegui, mas tive ajuda, em meio ao desespero e dei conta daquela bebê linda que queria mamar sem saber o que acontecia.

Aos poucos tudo se acertou e ela cresceu linda. Carinhosa, compreensiva,  e madura. Observadora, engraçada, leitora voraz e sonhadora.


Quando você nasceu, ela ganhou um primo. Ganhou alguém pra dividir a posição de neto da vovó e do vovô. E se divertiu brincando de cuidar de você.

Todas as vezes que vejo vocês juntos, meu coração transborda ainda mais de amor. Sei que crescerão amigos e cúmplices. E sei que sempre vou poder contar com ela pra cuidar de você.


Vivemos muitas coisas nos últimos anos e sei como tem sido difícil pra ela. Mas é incrível ver como a Laura é forte e resiliente. É surpreendente ver quantas coisas passamos em tão pouco tempo e como ela foi firme e não se deixou abater.

Eu tenho muito orgulho de ser a dinda da Laura, meu filho.


Hoje ela faz 15 anos. Vamos comemorar juntos aqui. Mas temos certeza que há uma outra comemoração desse dia acontecendo em algum lugar bem especial.


Parabéns, Laura! 

Nós te amamos! 


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

8 anos!















 Oi, filho.


Era Noite de Réveillon para 2022.

Fazíamos uma oração, eu, você e seu pai para o ano que se iniciava. Ao final da oração, com a voz embargada eu disse: “E que a gente esqueça o ano de 2021 de uma vez.”

Você me olhou com um olhar meio curioso, meio indignado e disse:

“Mamãe, mas se a gente esquecer o ano de 2021, a gente vai esquecer tudo que a gente aprendeu nele”


E assim começamos o ano novo com mais um ensinamento que vem de você, meu amor.


Hoje faz 8 anos que você chegou. E desde então não parou de nos ensinar sobre a vida. 

Sobre o amor. 

Sobre a esperança.

Sobre a força.


2021 não foi nem de perto como planejamos. Quando a gente achou que a poeira estava baixando, a vida trouxe uma ventania e a gente precisou aprender a se segurar mais firme ainda pra aguentar o tranco. Foi difícil. Triste. Pesado.

Mas como dizem por aí, tempos difíceis formam pessoas fortes. Talvez não seja tão simples assim, mas sim, atravessamos juntos e estamos aqui superando. E como não podia deixar de ser: aprendendo com você. Todos os dias.


Sabe filho, esse ano você teve dias muito complicados. Enfrentou situações que crianças da sua idade não deveriam ter que enfrentar. Mas não houve um dia sequer em que eu não me orgulhasse de você, da sua coragem, da sua resiliência, do seu coração generoso.

Aquele bebezinho cresceu e deu lugar a um garotinho esperto demais, com raciocínio rápido e emoção à flor da pele. 

Capacidade de observação surpreendente e agitação incontrolável.

Ansiedade, impaciência e doçura.

Apego, senso de humor e energia pura.



Depois de tantas coisas que vivemos tão intensamente num curto espaço de tempo, aprendemos juntos que não temos controle de quase nada, que nem sempre a vida é justa, que algumas situações fogem ao nosso entendimento, que algumas pessoas não têm o bem no coração e que todo dia pode ser o último dia.  Foram muitos questionamentos, muitas conversas, muito acolhimento, muitas noites difíceis de pegar no sono. 

E assim seguimos. Olhando você pegar no sono com a esperança de que o dia seguinte seria melhor. 



Realmente, meu filho. Não dá pra esquecer um ano inteiro. Não tem mais como deixar pra trás todo esse aprendizado. 


Hoje é seu aniversário.

Vamos recomeçar novamente. Um novo ciclo está prestes a começar e o amor que  nos envolve não deixa a esperança faltar. 

Siga aprendendo, meu amor. 

Feliz aniversário!

Te amo! 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

7 anos!













Oi, filho! 


Hoje é seu aniversário.

Há 7 anos, numa manhã de sábado você me mostrou que estava pronto pra sair da barriga.

Há 7 anos que esse dia chega e a gente comemora sua vida  sempre com o coração explodindo de felicidade.

Esse ano continuamos comemorando sua vida, mas não foi tão fácil e simples como estávamos acostumados.

O ano que passou foi um ano de muito aprendizado. Foi difícil ver você aprendendo a conviver com perdas profundas e dolorosas. Foi difícil não saber responder a maioria das perguntas e não ter solução para a maioria dos problemas. Mas sobretudo, foi difícil tentar lidar com a minha própria dor para conseguir acolher a sua.

Caminhamos por 2020 como foi possível. E mesmo em meio a tantos eventos tristes com consequências psicológicas e emocionais ainda em processo de cura, você cresceu absurdamente. Em estatura, sabedoria e graça. 

Aprendeu a assistir aulas pelo computador e a fazer seus deveres sozinho. 

Concluiu a alfabetização com fluência e ama fazer contas de cabeça. E sim, adora falar em inglês comigo.

Desenvolveu ainda mais a capacidade que sempre teve de observar tudo, de tirar suas próprias conclusões e de criar narrativas engraçadas. 

Conheceu o aplicativo de mensagens e diminuiu seu isolamento social mantendo contato com as pessoas queridas da sua vida. 

Realizou seu sonho de ter um cachorro, cuida dele e já aprendeu sobre a responsabilidade e o compromisso que é ter um animal de estimação. 

Fortaleceu as amizades já tão amadas e provou que a distância não diminui o sentimento. 

Não foi fácil. 

Eu vi bem aqui na minha frente, esse garotinho prestes a completar 7 anos, perguntando sobre a morte, questionando a ausência, assustado com o mundo... mas vi também esse mesmo garoto pequeno desenvolvendo resiliência, exercitando a compaixão e demonstrando empatia de forma que muito adulto por aí não chega nem perto de conseguir. 

Sabe, meu filho, criar uma criança com acolhimento e respeito causa estranheza no mundo de hoje. Mas durante esse ano áspero, eu confirmei o que, no fundo, eu e seu pai sempre soubemos: estamos no caminho certo. O caminho do amor, da leveza, da verdade, o caminho que nos tornou uma família e que nos capacitou para passar por tudo isso juntos.

Eu tenho muito orgulho de você, meu amor. 

Enfim, chegamos aqui e hoje é o seu dia. 

Vamos cantar parabéns e renovar a esperança de que esse novo ciclo que começa virá mais leve e colorido.

Obrigada por ser nossa alegria nesse tempo tão cinza.

Feliz aniversário! 

Te amo.




segunda-feira, 20 de julho de 2020

Precisamos falar sobre o vovô...


Oi, filho.

Esta é certamente a carta mais difícil que escrevo pra você.
Mas é também a mais urgente, a mais necessária, a mais importante de todas.

Eu queria te falar do seu avô. Do vovô Magalhães. Do vovô mais durão e mais doce. 

O vovô Magalhães foi a pessoa mais valente e destemida que eu já conheci. 
Foi ele que me mostrou a sensação de estar segura e protegida nesse mundo louco em que vivemos. Não tinha nada que ele não fosse capaz de fazer para nosso bem-estar e segurança.

O vovô nasceu lá em Portugal e veio para o Brasil com 17 anos começar a sua vida sozinho. Passou por várias dificuldades, encarou a vida de frente e aprendeu sobre tudo um pouco. Todo esse caminho fez dele uma pessoa forte e corajosa, mas também fez dele um cara fechadão, com dificuldade de expressar seus sentimentos. 
O que não queria dizer, de forma alguma, que não tinha sentimentos. Tinha um coração enorme, generoso, sempre pronto a ajudar. Tinha amigos queridos, que o admiravam e que gostavam de estar por perto e desfrutar de sua companhia.

Mas tem uma coisa, que eu preciso te contar. Uma coisa que aperta meu coração de pensar na possibilidade de você crescer e acabar esquecendo.
Toda essa casca grossa do seu Magalhães se desmontou todinha quando ele se tornou avô.
Você e sua prima chegaram e mostraram pra gente que por trás de toda aquela fortaleza tinha um vovô derretido, capaz de qualquer coisa pra ver os netos sorrindo. 
Quando você ainda era um bebê, te pegava no colo com doçura.
Quando você cresceu mais um pouquinho, ele sempre queria te dar as coisinhas açucaradas que eu não deixava você comer.
Quando você virou um garotinho levado, ele brincava com você. No terreno de Maricá, na garagem da casa dele, jogando bola, dando banho de mangueira, e até mesmo te ensinando a tocar sanfona. 
Sabe filho, seu avô sonhava em te ver tocando sanfona. E você derretia o coração dele quando dizia que queria aprender e tentava tocar a sanfona que ele te trouxe de presente, direto de Portugal. 

Seu avò adorava música. Música portuguesa. 
Foi ele quem me ensinou a dançar. E como dançava bem... música portuguesa, samba, forró, valsa...
Jamais vou esquecer o jeito que ele me olhava, me convidando pra dançar quando o vira começava a tocar. 


Seu avô adorava cozinhar pra gente. E fazia coisas deliciosas. Com prazer. Era só a gente chegar na casa dele e alguns minutos depois ele já corria pra cozinha pra inventar alguma coisa pro lanche. 
E como gostava da mesa cheia. Cheia de comida. Cheia de gente. Cheia de vida. Cheia de amor. 
Pra ele, quase tudo na vida girava em torno da mesa. Poucas coisas o faziam tão feliz quanto ver a mesa cheia da família. Se tivesse o vira tocando no fundo, a felicidade estava completa.


Seu avô não teve a oportunidade de terminar os estudos, mas sabia matemática como poucos. Fazia contas complexas de cabeça e tinha uma visão de administração invejável. Ele não se continha de alegria quando via a sua inclinação para os cálculos. Os olhos brilhavam orgulhosos de ver você respondendo de cabeça as contas que ele te passava. 


O vovô Magalhães tinha muito orgulho dos netos. Falava de vocês com brilho no olhar. Contava para os amigos o quanto vocês eram lindos, espertos, talentosos e tantas outras qualidades, que só o olhar do vovô apaixonado era capaz de captar.

Todas as vezes que eu olhava pra vocês dois juntos, meu coração se enchia de gratidão. Eu sabia que eram momentos preciosos, de alguma forma eu entendia o quanto um dia eu sentiria falta de presenciar aquilo. 

Essa semana que passou, eu, você e seu pai, tivemos uma conversa muito difícil.
Eu precisei olhar nos seus olhinhos e te falar que o vovô Magalhães foi pro céu tomar conta da gente lá de cima.
Você me perguntou como faria pra falar com ele agora e eu respondi que, assim como Mufasa, ele estaria lá no céu nos escutando, e que você poderia fazer como Simba e olhar pra cima e falar com ele.
Seu coraçãozinho ficou partido e choramos juntos abraçados. É preciso acolher a tristeza, deixar transbordar o que não temos controle sobre.

Algum tempo depois o sino da igreja tocou, 18h00. 
Todos os dias nos reunimos na varanda, rezamos a Ave-Maria. E você falava: "Mamãe do céu, por favor faça com o que o vovô Magalhães fique curado o mais rápido possível."
Dessa vez, o sino tocou e minhas pernas tremeram. 
Fiquei observando o que você faria.
Você foi para a varanda como todos os dias, rezamos a Ave-Maria, e meu coração apertou diante do seu silêncio e da sua hesitação. 
Você juntou as mãozinhas, olhou pra cima e disse: "Mamãe do céu, cuida do vovô Magalhães aí com você e não deixa que ele se machuque mais."


Você sempre me ensinando tanta coisa, meu filho.
Eu tenho certeza que de onde ele está, está ainda mais orgulhoso de você.

Vamos continuar aqui, Rafa, mostrando pro vovô tudo que aprendemos com ele: 
Seremos fortes e valentes.
Recomeçaremos todas as vezes necessárias. 
Estaremos unidos em volta da mesa.
Seremos generosos e justos.
Vamos transformar toda essa tristeza em coragem pra seguir em frente, sabendo que ele estará sempre conosco nas mais doces lembranças e em nossos corações.

Nunca se esqueça do amor do seu avó por você, meu filho.

Te amo.